Momento Espírita
Curitiba, 14 de Julho de 2020
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A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer. Briga pensando que não vai sofrer...

Com estes versos se expressa o cancioneiro popular. É a sabedoria do povo, sintetizando em breves palavras, os reveses dos encontros e desencontros.

Em se falando de rompimento de relacionamentos pessoais, o que é certo é que a dor é igual para homens e mulheres.

Olhos vermelhos de chorar, coração partido, uma sensação de que falta o chão, de que o mundo acabou.

Mágoa, sensação de abandono é o que fica machucando a alma.

Contudo, a vida escreve lições notáveis e felizes os que as aproveitam, em profundidade.

Soubemos de uma senhora que recebeu o marido de volta ao lar.

Cinco anos antes, encantado pela ilusão da juventude, a deixara, indo para os braços de quem lhe acenava com beleza e mocidade.

E, exatamente como o filho pródigo da parábola, nos dias de alegria e descontração, gozou de todos os prazeres. Tudo parecia sorrir.

Com a nova companheira, ele viajou, viu lugares maravilhosos, permitiu-se muitas coisas jamais antes sonhadas no aconchego do lar.

Agora, estava sendo literalmente devolvido à esposa. A rival, ao constatar que ele era portador de um câncer que avançava para a terminalidade, foi-se, sem olhar para trás.

Sou muito jovem – dissera – para me prender a um velho enfermo.

A esposa o acolheu e passou a tratá-lo. Confessou que ainda lhe queria bem.

Quatro meses passados e ela percebe, no olhar do companheiro que, embora ele tivesse melhorado um pouco a sua condição física, seu pensamento parecia viajar por outras paragens.

Vez ou outra, ela o surpreendia a olhar o telefone. Aquilo a machucava por constatar que ele não esquecera a outra.

Numa manhã de domingo, a esposa tomou a decisão: apanhou o telefone, digitou os números e o entregou a ele.

Pronto, fale com ela e pare de sofrer.

Saiu do quarto para chorar à distância, sozinha, sofrida mais uma vez.

Mais tarde, o marido lhe perguntou:

Você se importaria se ela me viesse visitar?

Não, absolutamente. Você tem o direito de recebê-la, respondeu amargurada.

Quando a campainha tocou, ela abriu a porta e se defrontou com uma linda jovem que sorria.

Estava muito bem vestida, como se tivesse vindo a uma festa. A esposa a conduziu ao quarto do enfermo.

Quando ia se retirar para os deixar a sós, o marido lhe disse:

Espere. A demora é pouca. Fique, por favor. Eu tenho algo a dizer a esta moça e desejo que você ouça.

Quero dizer a ela que agradeço por me ter permitido a chance, ainda nesta vida, de descobrir o erro que havia cometido. E a oportunidade de repará-lo.

Mais do que isso, quero lhe agradecer por me dar tempo de dizer a você que lhe quero muito bem.

Depois, com os olhos lacrimosos, a emoção quase a romper a cortina das lágrimas, completou:

Então, minha esposa, me perdoe. E me aceite de volta ao seu coração.

*   *   *

Feliz de quem reconhece os próprios erros e os pode reparar. Venturoso o ofendido que, convidado ao perdão, o oferece sem restrições.

 

Redação do Momento Espírita, com base na crônica Perdoa!,
 de Ana Guimarães, da revista Cultura Espírita, julho.2015,
 ed. ICEB.
Em 31.10.2015.

 

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