Na obra cinematográfica A língua das mariposas, assistimos a uma cena de beleza inigualável.
O personagem principal, Moncho, num diálogo com seu professor, fala:
Minha mãe disse que as pessoas boas vão para o céu e as más vão para o inferno.
E seu pai? - Pergunta o mestre, buscando compreender a aflição do menino.
Meu pai disse que, se houver um juízo final, os ricos iriam com seus advogados. Mas minha mãe não achou graça.
E você, o que pensa? - Inquire o atencioso educador.
O menino pensa por alguns instantes e revela:
Eu tenho medo...
O professor, enfim, lhe pergunta:
Você é capaz de guardar um segredo? - Moncho afirma com a cabeça que sim, interessado.
Só entre nós dois: o inferno, esse inferno de mais adiante, não existe. Ódio e crueldade, isso é o inferno. Às vezes, nós mesmos somos o inferno.
A cena termina com o menino dando uma mordida na maçã que trazia para o lanche, aparentemente aliviado.
* * *
Muitos de nós podemos trazer no coração essas mesmas dúvidas, mesmo quando adultos, mesmo tendo estudado essa ou aquela doutrina filosófica ou religiosa.
Ao que nos parece, é uma dúvida mais do coração do que da razão, pois o que primeiro precisa ser atendido é o medo.
Medo do desconhecido, medo de sofrer, medo de perder, medo de sentir.
Assim, quando o sábio educador pergunta ao menino: E você, o que pensa?- ele abre a possibilidade de acolher o que o outro sente.
Como pais, muitas vezes inocentemente, cremos que os filhos são depósitos vazios, que precisam ser preenchidos com saberes e valores.
Não consideramos que se trata de um Espírito que retorna, que traz construções prévias em sua alma, que precisam ser visitadas, analisadas e escutadas.
Talvez, para a mãe do menino, a crença que tinha sobre o destino das almas fizesse sentido. Mas será que ele se sentia satisfeito com ela?
Sabedoria não se passa como se transfere dinheiro de uma conta bancária para outra. Sabedoria é conquista individual.
De que adianta nos enchermos de teorias, sem respeitar o que vai dentro de nós? A teoria entra por um ouvido, esbarra em sentimentos com os quais não sabe lidar, e vaza pelo ouvido oposto.
No caso em questão, a herança dos pais trouxe apenas medo, até encontrar uma explicação mais simples: esse inferno de mais adiante, esse inferno como lugar terrível, não existe.
O verdadeiro inferno é um estado da alma e está na crueldade e no ódio das pessoas. Assim, se não quisermos viver nesse estado, basta nos educarmos, basta construirmos em nós sentimentos opostos a esses.
Somos nós que criamos nosso próprio inferno ou céu diariamente, dependendo dos sentimentos e pensamentos que cultivamos no imo de nosso ser.
A consciência de culpa. Alguém que vive sempre a se esconder, que tem que apagar os traços do que faz, com quem fala, não está vivendo seu pequeno inferno?
Pensemos nisso e nos libertemos de nossos infernos particulares o quanto antes. Pelos pensamentos, pelas ações, pela vivência diária do amor.
Dessa maneira, nunca mais teremos medo do inferno.
Redação do Momento Espírita
Em 15.8.2026
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