Momento Espírita
Curitiba, 20 de Abril de 2026
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ícone A caixa esquecida

Ao organizar um armário, Ana encontrou uma caixa pequena, sem rótulo, escondida no fundo, entre vários objetos esquecidos. Aquela caixa não era estranha, ela contava uma história.

Desde menina, Ana tinha o hábito de escrever quando algo a angustiava. Quando o medo apertava ou um problema parecia grande demais, ela colocava no papel aquilo que não conseguia dizer em voz alta.

Então, dobrava a folha com cuidado e a guardava naquela caixa, como quem confia um segredo.

A caixa era o seu refúgio silencioso. O lugar onde deixava as preocupações da infância, os medos da adolescência, as perguntas que a vida não respondera.

Guardar era uma forma de aliviar o peso, como se, ao escrever, dividisse a carga com o tempo.

Num impulso, Ana abriu a caixa. Dentro, havia papéis dobrados, amarelados. Tantos deles escritos em dias difíceis.

Reconheceu a própria letra apressada, trêmula, às vezes, quase ilegível. Em cada folha, um pedido. Em cada frase, um medo.

Havia ali preocupações com o futuro, dores que pareciam não ter saída, perguntas feitas em noites longas, quando o coração falava mais alto que a razão.

Ela leu devagar. E percebeu algo curioso. Muitas daquelas angústias já não existiam. Alguns dos temores jamais se concretizaram. Certas dores, que um dia pareceram eternas, haviam perdido a força.

Outras situações, que de fato aconteceram, não terminaram como ela temera. Ensinaram, transformaram, amadureceram.

Deu-se conta, então, de que o tempo havia respondido a maioria das perguntas. Não da forma imaginada. Mas de um jeito sábio.

Enquanto segurava os papéis, lembrou-se de um ensinamento de Jesus, tantas vezes ouvido e tantas vezes esquecido: o convite para não viver aprisionado à ansiedade do amanhã, para compreender que cada dia traz consigo o seu mal.

E que o excesso de preocupação não acrescenta solução. Apenas peso.

Aquela caixa era a prova disso.

Ali estavam as tentativas humanas de controlar o que não podia ser controlado. Também os gestos sinceros de quem, mesmo sem perceber, havia confiado.

Nem tudo fora atendido como pedido. Mas nada fora ignorado. Algumas dores precisaram acontecer para que novas escolhas fossem feitas. Outras se dissolveram no tempo, sem alarde.

Houve caminhos que se fecharam, apenas para que outros, melhores, se abrissem. E houve silêncios, longos silêncios que, agora, ela compreendia: não eram abandono, eram cuidados em processo.

Ana fechou a caixa novamente. Sabia o que ela sempre fora: um lugar de entrega. Ali estavam dores que não couberam em suas mãos, mas couberam nas mãos de Deus.

Ela aprendera que confiar não é entender tudo, nem receber respostas imediatas. Confiar é colocar diante de Deus aquilo que nos aflige e seguir adiante, certos de que nada é ignorado e nada se perde.

Essa a razão pela qual o Mestre de Nazaré nos ensinou a rogar ao Pai para que se faça a Sua vontade de sabedoria e de amor.

Redação do Momento Espírita
 Em 14.4.2026

 

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