Seu avô era um grande contador de histórias. Ele tinha um dom especial ao relatar as histórias mais simples, até mesmo as que ela já lera nos livros bíblicos.
Tinha sempre algo para acrescentar ao lido, ao já conhecido.
Foi assim que, um dia, falando a respeito da Providência Divina, ele narrou a lenda do Lamed Vavnik.
Nessa lenda, Deus afirma que permitirá que o mundo continue se, em qualquer momento, existir um número mínimo de trinta e seis pessoas boas na raça humana.
Pessoas que tenham sensibilidade pelo sofrimento, que é parte da condição humana.
Essas pessoas são chamadas de Lamed Vavniks.
Em seu mundo infantil, a menininha acreditava que seu avô sabia tudo a respeito de tudo e conhecia o mundo inteiro. Então, lhe perguntou se ele conhecia aquelas pessoas.
Não. - Foi a resposta dele. Somente Deus sabe quem são. Até mesmo os próprios Lamed desconhecem o seu papel e não há ninguém que saiba.
Eles respondem ao sofrimento não porque querem salvar o mundo, mas porque o sofrimento do outro os toca e tem importância.
Estão espalhados pelo mundo. Eles podem ser alfaiates ou professores universitários, operários ou donos de grandes empresas, milionários ou indigentes. Podem ser líderes poderosos ou homens simples do povo.
Não importa a sua classe social. O que os torna especiais é a sua capacidade de sentir o sofrimento coletivo da raça humana e ser sensível à dor do próximo.
Na cabecinha da menina, aquela história tomou um grande vulto. E se os Lamed não conseguissem dar conta de sua missão?
Afinal, o que eles precisavam fazer, para que o mundo continuasse a existir, não tivesse fim?
Preocupada, perguntou ao avô, que respondeu, com serenidade:
Querida, eles não precisam fazer nada excepcional. Eles respondem, naturalmente, ao sofrimento com solidariedade.
Sem solidariedade o mundo não pode continuar. É a solidariedade que abençoa e sustenta o mundo.
*
A solidariedade humana não é apenas um imperativo moral, mas a base biológica e social que permitiu, desde os primórdios, a nossa sobrevivência como espécie.
Aprendemos que a cooperação mútua compensa nossas fragilidades físicas. Aprendemos que a proteção coletiva se torna um escudo contra as adversidades do meio.
Ante as catástrofes, as crises globais, compartilhar recursos significa atender à preservação da preciosa vida humana.
O apoio recíproco carrega a mensagem da esperança porque, quando as mãos se estendem, nos sentimos fortalecidos para o enfrentamento das crises.
A prática da solidariedade é o mecanismo essencial que assegura a continuidade da vida e a preservação do nosso futuro comum.
O mundo somente poderá existir se nos dermos as mãos, se soubermos olhar uns nos olhos dos outros e caminharmos juntos.
A vida na Terra não é um ato isolado. É uma sinfonia de dependências. Somos o fio que sustenta o outro. É no entrelaçar das mãos que o tecido da Humanidade se torna forte o suficiente para não romper diante do tempo.
Cuidar do próximo significa, também, cuidar do ambiente que todos compartilhamos.
Redação do Momento Espírita, com base na
introdução do livro As bênçãos do meu avô,
de Rachel Naomi Remen, ed. Sextante.
Em 30.3.2026
Escute o áudio deste texto