Momento Espírita
Curitiba, 20 de Abril de 2026
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ícone As pedras do caminho

Inspirada poetisa escreveu:

De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.

Nesses curtos versos, ela retrata o sentimento de impotência quando nos falta a sensibilidade de transcender o cotidiano. É quando vemos tudo com os tons e o perfume da aridez.

Observamos algo, queremos dar-lhe cores líricas, mas nos falta o sentimento, pois o desencanto tomou de assalto nosso coração.

Outro poeta que, certamente, deve ter sentido algo semelhante escreveu:

No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho.

Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra.

A simbologia da pedra tem sido usada com variados propósitos na filosofia, na prosa e na poesia, desde tempos imemoriais.

Ela retrata a imutabilidade das coisas, os obstáculos e sentimentos arraigados. Por isso usamos expressões como: coração de pedra, sentimento pétreo.

Jesus, dirigindo-se aos apóstolos, disse: No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.

O que seriam essas aflições senão as pedras do caminho e o bom ânimo a maneira de as enfrentarmos?

Ao se deparar com pedras, cada qual delas se serve de maneira peculiar.

O engenheiro delas se serve para construir casas, estradas, pontes, aquedutos.

O arquiteto as emprega em belas curvas.

O lavrador as recolhe a um canto para que não comprometam os seus instrumentos de corte.

O jardineiro demarca canteiros de flores.

O escultor lhes liberta a alma, desnudando-lhes a beleza.

O pescador faz diques para conter as águas das marés.

O guerreiro as usa como arma.

O preconceituoso ergue muros para se isolar dos seus irmãos.

O colérico as atira no irmão de caminhada.

O preguiçoso desvia-se delas. E da oportunidade de servir.

O egoísta delas se apodera, imaginando usos exclusivistas.

O vaidoso, para ficar em evidência.

*   *   *

E as pedras da nossa existência, que fazemos com elas?

Servindo-nos dos versos da poetisa, em leve ajuste, consideremos que, quando perdemos a fé, olhamos pedra, vemos somente pedra, que nos parece inamovível.

No entanto, o Mestre galileu nos afirmou que bastaria a fé do tamanho de um grão de mostarda para mover uma montanha.

O segredo para superar as dificuldades, por mais intransponíveis que pareçam, reside na força inabalável da fé.

Ela atua como uma luz em meio à escuridão, permitindo-nos enxergar além do problema imediato.

Com ela, transformamos o medo em coragem e a incerteza em convicção.

Ela nos permite absorver os golpes, mantendo o espírito firme e a esperança viva. Ela nos impulsiona a dar o primeiro passo, confiantes de que a solução se manifestará.

Serve como alicerce moral, fortalecendo a vontade e a determinação de não desistir, por maiores sejam os óbices.

Ela nos recomenda paciência, aguardando o tempo certo com a certeza de que a vitória virá.

Transponhamos, portanto, as pedras das adversidades e alcançaremos a superação plena.

Redação do Momento Espírita, com base no poema Paixão,
 do livro
Coração disparado, de Adélia Prado, e no poema
 
No meio do caminho, do livro Alguma poesia, de
Carlos Drummond de Andrade, ambos da ed. Record.
Em 26.12.2025

 

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