Tudo começou quando a garotinha de apenas quatro anos de idade recebeu o presente do avô.
Ele era um homem velho, conforme a apreciação dela. Afinal, para o botão que ainda nem principiou a se abrir, a rosa totalmente aberta para o mundo é mais do que velha.
Mesmo porque a etapa seguinte é ir perdendo as pétalas uma a uma e depois debruçar-se sobre o galho que a sustenta, demonstrando que não há mais energia para viver.
O avô não costumava dar presentes, embora ela adorasse bonecas, livros de histórias e bichos de pelúcia.
Mas, naquele dia, ele trazia algo nas mãos e, quando ela o abraçou, efusivamente, recebeu dele o pequeno pacote.
Com brilho nos olhos, precipitação nas mãos, ela rasgou o papel, liberando o conteúdo.
Que decepção! Era apenas um copo. O que será que tem dentro dele: doces, chocolate? - Pensou ela.
Retirou a tampa e seus olhos deixaram de brilhar. Havia apenas terra. Não fosse o respeito que lhe exigiam os pais para com o avô, ela teria jogado longe.
Quase a chorar, olhou para o rosto dele.
Ele sorriu com ternura. Então, apanhou um pequeno bule no jogo de chá de brinquedo, foi até a cozinha e o encheu de água.
Sempre acompanhado pela pequena, que não estava entendendo nada, ele colocou o copo com terra no peitoril da janela e lhe entregou o bule.
Com carinho, como alguém que deseja ministrar a aula mais preciosa, disse-lhe:
Se você prometer que vai colocar água no copo todos os dias, alguma coisa pode acontecer.
A menina olhou para ele com desconfiança. Nada daquilo fazia sentido. Regar um copo de terra todos os dias? Para quê?
No entanto, ante o olhar, recheado de carinho, ela prometeu.
Pareceu-lhe que o vovô não estava mais pensando direito.
Depois das primeiras regas, ela ficou curiosa: Será que aconteceria algo especial?
Contudo, passados alguns dias, a tarefa foi ficando difícil. Após uma semana, ela queria desistir daquilo. E, assim que tornou a ver o avô, perguntou se poderia parar.
Todos os dias, foi a resposta dele. Todos os dias.
A segunda semana foi mais penosa. Ela estava arrependida de sua promessa. Queria devolver aquele presente incômodo.
Na terceira semana, vez ou outra, esquecia de colocar a água no copo. Lembrava quando já estava debaixo das cobertas, pronta para dormir.
Era obrigada a se levantar e cumprir a tarefa.
Então, numa manhã, surgiram duas minúsculas folhas verdes que não estavam lá na noite anterior. Elas foram crescendo, ficando maiores.
Mal se conteve para, quando encontrou o avô, lhe dizer da sua surpresa.
Com todo o cuidado, ele explicou que a vida está em toda parte, escondida nos lugares mais simples e inesperados.
Ainda encantada, ela perguntou: E só precisa de água, vovô?
Não, querida, só precisa da sua lealdade.
* * *
Raquel viria a entender aquela poderosa lição somente alguns anos mais tarde.
Uma lição que fala que quando somos capazes de abençoar a vida, com nosso serviço, somos capazes de reconstruir o mundo.
Redação do Momento Espírita, com base na
Introdução do livro As bênçãos do meu avô -
Histórias de relacionamento, força e beleza,
ed. Sextante.
Em 26.11.2025
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