Momento Espírita
Curitiba, 07 de Julho de 2020
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ícone As lágrimas

Existem pessoas que afirmam ter uma grande dificuldade para chorar.

Há quem acredite que as lágrimas são próprias da feminilidade, que atestam fraqueza, fragilidade.

Certa feita, um pai foi surpreendido pela pergunta de seu filho de cinco anos:

Pai, por que nunca vi você chorar?

Que poderia ele responder?

Talvez fossem seus anos de raiva, tristeza e até alegria engolidas, que o impedissem de se expressar com lágrimas. Ou talvez porque fora educado com os conceitos de que o homem não deve chorar.

A verdade é que aquele pai sofria de problemas de depressão, com os quais lutava há tempos e somente respondeu:

Filho, lágrimas fazem bem para meninos e meninas. Fico feliz que você possa chorar sempre que está triste. Os pais, às vezes, têm dificuldade para mostrar como se sentem. Talvez eu possa melhorar algum dia.

Nos dias que se seguiram, o pai orou intensamente a Deus rogando por alguma coisa que o fizesse sentir-se melhor.

Aproximava-se o Natal com todo seu encanto e magia. O diretor da escola convidou o garoto de cinco anos para cantar pequena estrofe de uma canção natalina, em um culto religioso.

Naturalmente, os pais se encheram de entusiasmo. O filho tinha pendores para a música. Estudava piano desde os quatro anos. Gostava de cantar.

À medida que os dias iam sendo marcados no calendário, dando ciência da proximidade do evento, pais e filho principiaram a ficar ansiosos.

O menino começou a temer não conseguir e o pai compareceu à cerimônia religiosa, na véspera de Natal, com expectativas limitadas.

Colocou-se no lugar do filho e imaginou que jamais ele enfrentaria um microfone e um público com centenas de pessoas.

O garoto aproximou-se do microfone e começou a entoar as notas, uma a uma. Eram versos lindos que enchiam o espaço e os corações.

O pai contemplou o menino e sentiu-se invadir por uma onda de ternura. O que seu filho cantava tinha sabor de eternidade, uma beleza sem par.

Parecia-lhe que um anjo se corporificara ali, perante a comunidade, para brindar a todos com um presente especial de Natal.

Então, grossas lágrimas surgiram nos seus olhos. A canção terminou e ele buscou o filho.

Ajoelhou-se, para ficar do tamanho dele e penetrou com o seu o olhar azul do menino.

Patrick, você se lembra de quando me perguntou por que nunca me tinha visto chorar?

O menino afirmou com a cabeça.

Bem, estou chorando agora. Seu canto foi tão lindo que me fez chorar.

O garoto sorriu, feliz. Atirou-se nos braços do pai, dizendo-lhe ao ouvido enquanto o estreitava fortemente:

Às vezes, a vida é tão bonita que a gente tem de chorar.

*   *   *

Por temperamento nos retraímos em muitas circunstâncias.

Todos detemos a capacidade dos melhores sentimentos de amor. Expressá-los, permitir que outros compartilhem das nossas emoções, das alegrias ou das dores que nos invadam o íntimo, é também exercício de humildade e fraternidade.

Quando nos sentirmos tocar nas fibras mais delicadas de nosso ser, pela música, por um gesto de carinho, uma conquista dos nossos pequenos, permitamo-nos a visita das lágrimas doces, expressão do amor que alimenta outros amores, sem vergonha, porque ninguém evolui realmente sem o cultivo dos sentimentos mais edificantes.

Redação do Momento Espírita, com base
no conto  
Longe, na manjedoura, da Revista
Seleções Reader’s  Digest, dezembro de 1998.
Em 18.12.2018.

 

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